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Saiba como rodam as motos Royal Enfield que acabaram de desembarcar no Brasil

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03/05/2017 15h52

A centenária Royal Enfield chega ao Brasil com três modelos de motocicletas

Do bloco de formas arredondadas do motor da Royal Enfield Classic projeta-se um longo e cromado pedal de partida. O item, raridade nos dias de hoje, induz ao erro: as atuais motos da marca indiana têm partida elétrica. Mas, caso seja necessário, será preciso um "motociclista raiz" e com disposição para acordar o monocilíndrico de 499 cm³ na "pedalada", como antigamente. A expressão que, em oposição ao motociclista "nutella", virou meme das redes sociais explica bem a proposta da Royal Enfield.

As motos indianas adotaram visual clássico e mecânica simples

Recém-lançada no Brasil, a marca indiana chega com três modelos construídos com o objetivo de ser o mais fiel possível aos originais. Com todo charme, e também peculiaridade, que essa filosofia traz consigo. Afinal, as Royal Enfield não são clássicas apenas no visual, como mostrou esse primeiro contato com os modelos Bullet, Classic e Continental GT em um trajeto de 150 km pelas estradas do interior paulista.

No melhor estilo a cafe racer, a topo de linha Continental GT ABS custa R$ 24.500

O motor, que serve de base para os três modelos vendidos aqui, segue a receita das antigas Royal Enfield: um monocilíndrico de grande capacidade. Redesenhado recentemente, tem injeção eletrônica, câmbio de cinco marchas e embreagem multidisco em banho de óleo. Entretanto, a marca manteve características chaves do propulsor original dos anos de 1950: o longo curso do pistão (90 mm) e uma pesada engrenagem volante que proporciona muito torque em baixos giros. E com a "clássica" refrigeração mista a ar e óleo.


Nas Royal sobram estilo e torque, porém falta potência ao motor de um cilindro

Como resultado, o motor cresce lentamente de giros e vibra bastante em altas rotações. O desempenho é "retrô": 27,5 cavalos de potência máxima a 5.250 rpm no motor de 499 cm³ da Classic e da Bullet; e 29,4 cv no propulsor de diâmetro maior e 535 cm³ de capacidade que equipa a Continental GT. Números bem inferiores a outras nakeds médias atuais.

O destaque da família Classic é a roupagem militar

O primeiro trecho do test-ride entre Itupeva e Serra Negra, em São Paulo, percorri com a Classic Desert Storm. A pintura bege fosca reforça o visual militar e acrescenta R$ 1.100 ao preço base do modelo, que é de R$ 19.900 sem ABS. Ao ligar, o motor emite um ruído alto, como um "clunk", por culpa do grande volume deslocado dentro do cilindro. O piloto vai literalmente sentado, com o tronco ereto e pernas e braços projetados à frente, em uma posição bem típica das motos clássicas. Embora a unidade avaliada tivesse banco único, a Classic é vendida com o banco da garupa.

Nesta linha Classic há ainda a opção da cor azul, que nos remete a Aeronáutica

A embreagem de acionamento macio facilita engatar a primeira. O motor nem gira muito e logo já é preciso subir de marcha. E assim, acontece com a terceira, quarta, quinta… O som compassado e grave do monocilíndrico também é fruto de robustos dutos de óleo que ajudam a arrefecer o motor e evitam que o piloto sinta o calor do motor nas pernas.

Esbanjando torque – 4,2 kgf.m -, a  Classic Desert Storm é pura diversão na estrada

O grande barato de rodar com a Classic – ou com as outras Royal Enfield – é engatar quarta ou quinta e "brincar" com o torque do motor. Mesmo em trechos de subida não era preciso reduzir para sentir o amigável "torque", que já aparece a partir dos 3.000 giros e atinge o máximo de 4,2 kgf.m a 4.000 rpm. No plano, em quinta marcha, nessa faixa de rotação, o velocímetro analógico redondo, posicionado sobre o farol, marcava 80 km/h. Ao girar um pouco mais o acelerador foi possível chegar a 110 km/h. A velocidade máxima deve ser de cerca de 130 km/h, mas a vibração excessiva incomoda os pés e as mãos.


A linha militar pode contar ainda com sistema de freios ABS, por R$ 22.000

Como resultado dessa tocada mais tranquila, ou seja, com marchas altas e giros baixos, a Royal Enfield promete baixo consumo: cerca de 35 km com um litro de gasolina. Se perde em desempenho para as motos de 500cc modernas, a Classic ganha em economia. As robustas suspensões ajustadas para as esburacadas estradas indianas surpreendem. Confortáveis, vão bem no asfalto ruim das estradas vicinais com amortecimento bem progressivo. O acerto macio do garfo dianteiro e do bichoque traseiro, porém, não atrapalha deitar nas curvas do sinuoso caminho para Serra Negra. O limite do lado direito é somente o grande pedal do freio traseiro, a tambor, que raspa em inclinações maiores.


Econômico, o modelo rodou 35 quilômetros com um litro de gasolina

Por falar em freio, o disco dianteiro não tem uma "mordida" instantânea, mas para com eficácia os 195 kg em ordem de marcha da Classic – há também uma versão com ABS. Como o desempenho não é assim, esportivo, os freios e as suspensões dão conta do recado.A Bullet 500, a mais básica da Royal Enfield, custa a partir de R$ 18.900

No segundo trecho do teste era hora de experimentar a Bullet. O modelo fabricado desde 1932 é um dos mais antigos do mundo ainda em produção. Apesar do visual diferente, quadro e motor são os mesmos da Classic. Seu banco, porém, é inteiriço, as tampas laterais são quadradas e o para-lama traseira é mais envolvente.
O desempenho do conjunto motriz é idêntico ao da Classic, mas têm-se a sensação de que o trem dianteiro é mais leve e ágil nas mudanças de direção – muito em função da posição onde o piloto vai sentado. Uma boa para a proposta "urbana" da Bullet. Modelo mais acessível da Royal Enfield, a Bullet é menos "estilosa" que a Classic, mas é tão "raiz" quanto. Vendida apenas em uma versão sem ABS e com três opções de cores – cinza, preta e verde – por R$ 18.900.

O modelo urbano pode ser a uma boa opção para iniciantes e público feminino

A filosofia do "motociclismo raiz" da Royal Enfield encontra espaço na atual onda retrô que virou moda no mercado de motos. A proposta da marca indiana é bem clara: oferecer uma moto de visual clássico e mecânica simples por um preço acessível. Desde que não se tenha pressa, uma vez que seu motor não gosta, e não rende bem, em altos giros, a proposta tem lá seus encantos. Mas é preciso compreender também suas peculiaridades.

A Bullet pode ser adquirida em três opções de cores: cinza, preta e verde

Qualquer um dos modelos, porém mais a Classic e a Bullet, são o mais perto que se pode chegar de uma moto dos anos 50, porém com componentes modernos. Uma moto zero quilômetro, mas ainda com o som, a sensação e o charme de uma antiga. Se o acabamento ainda não está nos patamares das motos japonesas, por outro lado, é bem superior às chinesas.

Fundada em 1901 na Inglaterra, a Royal Enfiled quer o "motociclista raiz"

Cheia de personalidade, mas sem complicações tecnológicas ou velocidades de três dígitos, as motos indianas são uma boa opção para quem procura uma moto clássica para passear com calma no fim de semana, mas que até pode ser interessante para rodar na cidade. (Por Arthur Caldeira)

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Arthur Caldeira, jornalista e motociclista (necessariamente nessa ordem) fundador da Agência INFOMOTO. Mesmo cansado de ouvir que é "louco", anda de moto todos os dias no caótico trânsito de São Paulo.

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