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Taiwan não é a China

Vista do edifício Taipei 101, segundo maior do mundo, na capital de Taiwan

O nome oficial de Taiwan é República da China por mais que a China (a da República Popular) não goste dessa nomenclatura. A história é complicada, mas vou tentar resumir: depois que Mao Zedong (ou Tsé-Tung se preferir) e o Partido Comunista  fundaram a República Popular da China em 1949, os integrantes do Partido Nacionalista, o Kuomitang, se refugiaram na ilha de Taiwan e mantiveram o nome de República da China. O país era reconhecido por diversas nações e, inclusive, foi um dos membros fundadores da ONU, onde ocupou uma cadeira permanente no Conselho de Segurança até 1971, quando a tal China continental reivindicou seu lugar. Hoje, o tal princípio de uma só China ainda vale e o reconhecimento de Taiwan como um país independente é limitado… Mas intrigas políticas à parte, o fato é que Taiwan não é a China.

Scooters são maioria esmagadora em Taiwan

Pode até parecer, mas não é. Afinal a etnia é a mesma, a língua oficial também é o mandarim – porém em Taiwan o alfabeto utilizado é o chinês tradicional, enquanto a China adotou um alfabeto simplificado -, a comida é bastante semelhante, mas há diversas diferenças. A começar pelo trânsito. Enquanto no continente, as cidades chinesas são caracterizadas por um buzinaço muitas vezes irritante, nas ruas taiwanesas dificilmente ouve-se alguém buzinar – pelo menos durante a semana que passei rodando o País de norte, na capital Taipei, a sul, na cidade de Kenting.

Os pequenos scooters têm preferência na saída de semáforos

Outra diferença são os veículos de duas rodas. Enquanto na China há muitas cidades que proíbem a circulação de motos, em Taiwan elas podem circular em todas as cidades. Porém em ambos os países não se pode rodar de moto nas rodovias e estradas. Isso fez com que a frota de duas rodas em Taiwan seja formada praticamente somente por scooters. Muitos scooters. Em diversos locais, inclusive parques públicos, há estacionamentos reservados aos scooters, até mesmo com postos de recarga para os scooters elétricos. Além disso, há um local preferencial para os scooters nas saídas de semáforos e ainda um espaço reservado para scooters fazerem conversões em grandes avenidas. Apesar de parecer uma bagunça, notei que o trânsito funciona. Os taiwaneses em geral pilotam em menor velocidade e são bem mais tolerantes que os motociclistas e motoristas brasileiros.  Para se ter uma ideia do enorme mercado, em 2011 foram vendidos 1.206.179 veículos de duas rodas – quase que somente scooters. Quase não se vê motos nas ruas, muito em função da proibição de veículos de duas rodas na estrada. Posso contar nos dedos de uma mão quantas motocicletas avistei. Mas isso deve mudar.

Parques e diversos locais têm estacionamento para os veículos de duas rodas

Tanto que o motivo da minha viagem à Taiwan foi o lançamento da Dafra Next 250, produzida pela SYM. Vislumbrando a mudança na legislação taiwanesa, a SYM, segunda maior fábrica de scooters de Taiwan, atrás apenas da Kymco, apresentou a T2 (nome da Next no mercado local). Tudo indica que, a partir de setembro, o governo deve  liberar motos acima de 250cc nas estradas e também vai exigir uma nova carteira de habilitação para quem quiser rodar nas rodovias.

Para facilitar a vida dos scooters, há um espaço para conversões em grandes avenidas

Além disso, outra grande diferença entre China e Taiwan é que a pequena ilha de cerca de 36.000 km² sempre esteve mais aberta economicamente. O processo de industrialização pelo qual hoje a China passa Taiwan já o enfrentou há algumas décadas. Tanto que a própria SYM já produziu scooters Honda até meados da década de 90 e essa experiência fez com que as indústrias taiwanesas crescessem do ponto de vista tecnológico e de processos. Para se ter uma ideia, 94% dos notebooks vendidos em todo o mundo são fabricados em Taiwan. A Foxconn, famosa por produzir iPads e Iphones, é chamada erroneamente por muitos de chinesa, mas tem sede em Taiwan. Vale lembrar que Taiwan era um dos quatro tigres asiáticos – ao lado de Hong Kong, Coreia do Sul e Cingapura.

Fábrica da SYM em Hsinchu produz cerca de 250.000 scooters por ano

Como resultado disso, as indústrias taiwanesas adotam processos mais modernos e têm um controle de qualidade maior do que suas concorrentes chinesas. Isso até gera desconfiança por parte dos taiwaneses de que os chineses – que precisam de visto para entrar em Taiwan – vão até lá para espionar os segredos industriais.

Fachada do centro de pesquisa e desenvolvimento da SYM, o interior não pôde ser fotografado

Nós visitamos a fábrica e o centro de Pesquisa e Desenvolvimento da SYM em Hsinchu e confesso que se assemelham muito às fábricas japonesas de motos instaladas aqui em Manaus. Quando comentei que o laboratório de testes era semelhante ao que tinha visto no Brasil com um funcionário da SYM, ele me revelou em bom inglês: “Mas é claro! Compramos tudo isso da Honda!”. Ou seja, os taiwaneses tentam se espelhar nos nipônicos: reconhecidamente os melhores do mundo em processos industriais e controle de qualidade. Lembro-me que, no início dos anos 2000, alguns produtos Kymco foram vendidos no Brasil e chegaram até mesmo a fazer sucesso. Outro bom exemplo é o próprio scooter Citycom 300i, também da SYM e vendido no Brasil pela Dafra. Em 2011 foram vendidas mais de 2.000 unidades do Citycom. É difícil de explicar, mas fácil de entender para quem já visitou os dois países. Taiwan pode parecer a China, mas não é. (texto e fotos Arthur Caldeira)

Palácio da Justiça em Taipei, capital de Taiwan. Note que a bandeira é diferente da chinesa

O trânsito parece uma bagunça, mas funciona e é silencioso

Scooters infestam as ruas de Taiwan

Postado por em 10/04/2012.

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Comentários

26 respostas para “Taiwan não é a China”

  1. Ailton Lima disse:

    Pois é, enquanto isto, em nosso glorioso país em que o governo ignora a existência das motos, elas continuam circulando em alta velocidade no meio dos carros ignorando todas as leis, as da física, as de trânsito e as de cidadânia.
    Imaginem que aqui temos scooters circulando em rodovias passando entre faixas, e no meio de caminhões.
    O resultado só poderia ser este que vemos todo dia, um monte de acidentes, a maioria graves e mais congestionamentos por causa dos acidentes.
    Quando é que este pessoal que anda de moto vai aprender que moto não é brinquedo, é um veículo automotor extremamente perigoso, que não oferece nenhuma proteção ao seu condutor ?
    Infelizmente a maioria só irá aprender da pior forma possível, em uma cama de hospital. Uma pena, iremos perder uma geração inteira, mutilada ou morta por causa das motos.

  2. betaum disse:

    Esqueceram de dizer que Taiwan, que era território chinês, passou a ser um país independente da China por questões políticas, de vez que Taiwam foi ocupada por disidentes chineses que não aceitaram, assim como Hong Kong, o regime comunista chinês. Mas a China declara abertamente que Taiwan é sim território chinês e que irá, até às últimas consequências, reaver sua soberania patrimonial sobre a ilha. Política à parte e ao que interessa pra nós é que os chineses, tanto os da ilha como os do continente, estão produzindo cada vez mais motocicletas de apurada tecnologia e qualidade (lembram os produtos japoneses dos anos 80, ou até melhores) e, no mais puro estilo capitalista, o quesito custo/benefício chinês está ficando cada vez mais imbatível (não me venham com discursos de mão de obra escrava e bla bla blas que isso não cola mais). Gambé!! (brinde chinês)

  3. Troy disse:

    Sabe aquela alavanquinha (SETA) que fica atrás do volante dos carros? O não uso deste equipamento para o fim que foi concebido e cujo correto uso está previsto em lei É A MAIOR CAUSA DE MORTE DE MOTOCICLISTAS E CICLISTAS NO BRASIL. Quem dirige carro geralmente mata aqueles que dirigem motos e bicicletas. Ou alguem já viu o contrário?

  4. Carlos disse:

    Taiwan é uma província da China, não um país!

  5. José Roberto Ladeira Geraldo disse:

    Não esqueçam por favor. Os acidentes não são causados pelas motos e sim pelos condutores das motos.
    A moto, sozinha, não causa acidente em ninguém.

  6. cetico disse:

    O grande problema no Brasil é a falta de educação.Não dá para comparar com nenhum pais desenvolvido e muito menos com os japoneses , coreanos e chineses.Corrupção,roubo,violençia,acidentes tudo é fruto da não educação.

  7. Vanderlei disse:

    Engraçado… as motos são perigosas, os motoqueiros são loucos…

    Mas tem os motoristas que só podem ser INVEJOSOS e EGOISTAS, fecham o corredor, para impedir o motociclista de passar, não respeita o espaço, não usa seta (aquela luzinha que pisca)… os maridos compram aquelas SUVs para aquelas velhas gordas que não conseguem nem estacionar e saem por ai fazendo um monte de M@#$@… ai vem o Motociclista “Mau”, depois de um dia inteiro tomando fechadas e aguentando pirracinhas e chuta um retrovisor do carro que está impedindo ele de trabalhar (muitas vezes por pura implicância).
    Não estou defendendo os MOTOQUEIROS KAMIKAZES, mas sim muita gente inocente e trabalhadora que usa a motocicleta como meio de locomoção ou de trabalho.

    Por incrível que pareça, São Paulo é um dos lugares que mais se respeita o Motociclista, porque os motoristas aprenderam do pior jeito que tem que respeitar o motociclista

  8. Talita disse:

    Alguém aqui sabe se no Brasil já vende a Honda PCX 125i ou a dafra citycon?

  9. B.D.Campos disse:

    Scooder, é mesmo uma boa para o transito urbano, só to esperando a Honda fazer um de 125cc. pra mim comprar. Parabens pela reportagem li inteira.Abraços.

  10. Krat'nn Heillter disse:

    O que mais me impressionou a ver as fotos, parece que ninguém percebeu, foi a limpeza e o trato das ruas, fiquei muito envergonhado pelo Brasil.

  11. Marcelo disse:

    Eu tenho uma Traxx, minha irmã já teve uma Sundown.
    O problema dos que reclamam de peça de reposição de motos, é muito simples de ser entendido.
    Compram a moto (qualquer marca) vão na concessionária e não tem a peça (isto acontece com quem compra carro zero também).
    O que fazem: vão pro mercado comprar peças paralelas ou muitas vezes usadas (oriundas de furto/roubo)
    Esses defendem as marcas tradicionais alegando que sempre encontram peça, pois não tem a paciência nem o discernimento que se tem um “carro ou moto” em garantia tem de fazer o reparo na concessionária e independente da marca está sujeito a ter de esperar sim uma peça vir da fábrica.
    Preferem alimentar o mercado do crime e dizer que as marcas não tradicionais não prestam, mas porque não prestam:
    95% das reclamações são: não tinha a peça que eu precisava.
    então compram uma H e colocam qualquer porcaria paralela fabricada, depois dane-se o otário que comprar!

  12. Marcelo disse:

    Parabéns pela reportagem, pois não só mostrou a moto, mas que tendo-se educação é possível sim conviver em harmonia no transito.

    Concordo plenamente com o colega Krat’nn Heillter que limpeza.

    E comentar o que sobre os espaços para as motos pararem na frente nas semafóros!

  13. Lesídia disse:

    Tenho quase 50 e não me considero uma motociclista “louca”. Sinto que economizo espaço, combustível e dinheiro para o planetinha (lotado). Se cada moto fosse um carro, onde caberíamos? Moto não mata, quem (se) mata é o motociclista e o motorista (ambos cometendo uma série de erros – quase nunca um único erro leva a tragédias).
    Quanto eu paro em preferencial, para os cães, idosos fora da faixa, aguardando manobras, até mudo rua se o caos é muito. Nunca tive acidente sério, mas estou ciente do risco.