A capa do caderno Cotidiano do jornal “Folha de São Paulo” de hoje, 11 de agosto, traz um dado interessante: “Cidade recolhe uma moto irregular a cada 15 minutos”. O número impressiona, já que em 2010 eram retidas das ruas em média 20 motocicletas por dia e, hoje, o número passou para 100.
A notícia é animadora, afinal muitas dessas motos estão sem a mínima condição de circular, com a documentação atrasada ou, melhor, voltando para as mãos de seus donos, certo? A história não é bem assim. A reportagem da “Folha” mostra que um novo espaço para guardar as motos irregulares foi disponibilizado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). O pátio fica na Praça Alberto Lion, na divisa das regiões Central e Leste.
E esse é o principal motivo para que o número de motos apreendidas tenha quintuplicado neste ano. Pois, segundo a própria Polícia Militar, era comum liberar motos irregulares — sem licenciamento, por exemplo — apenas com multa, por falta de espaço nos pátios.
Lógico que a fiscalização deve ser implacável e quem não estiver regulamentado tem que pagar por sua infração, até porque pode causar danos a terceiros.
Mas, enfim, a matéria levanta uma discussão interessante e, nós, especializados no segmento de duas rodas, ficamos pensando: porque o número de motos recuperadas depois de furto não acompanha este ritmo? A resposta está no comércio irregular de peças de motos.

Apesar de considerarmos um avanço na fiscalização, o foco do problema não é combatido pelas autoridades
O centro da capital paulista continua vendendo peças “mais baratas” e, por lá, parece que as fiscalizações e apreensões ainda não quintuplicaram. A equipe da INFOMOTO foi até a Rua Barão de Limeira e, em meio a lojas tradicionais, fica visível o mercado negro de peças roubadas. Você já parou para pensar que cada peça roubada pode significar um motociclista a menos curtindo seu instrumento de prazer ou ferramenta de trabalho. A impunidade alimenta este comércio ilegal. Por isso, nunca compre uma peça de origem duvidosa.
Entendemos o foco da reportagem da “Folha”, baseado em um número realmente impressionante. Mas o xis da questão parece não fazer parte desse imbróglio. Segurança para as motos trafegarem em meio aos carros; operação conjunta das polícias para extinguir o mercado de peças roubadas; conscientização por meio de cursos para que o motociclista e o motorista possam viver em harmonia; e por ai vai.

Área entre a Alameda Barão de Limeira, Rua dos Gusmões e Rua Conselheiro Nébias, que será remodelada no projeto Nova Luz, tem lojas tradicionais e o mercado negro de peças roubadas convivendo no mesmo espaço
A sociedade vê a moto como um agente desagregador, um estranho na “selva de pedra”. Porém, hoje, a motocicleta é sinônimo de mobilidade urbana. Enquanto os paulistanos, de certa forma, repudiam a moto, em outras capitais do primeiro mundo, o uso do veículo de duas rodas é incentivado.
O que falta é uma maior disseminação da cultura motociclística, investimentos em ações socioeducativas e uma maior dose de tolerância. Só assim vamos conseguir resolver o problema e não tentar restringir cada vez mais o uso da motocicleta, que, apostamos, será o meio de transporte do futuro de uma metrópole como São Paulo. (Por André Jordão)